A confiabilidade do registro: da forma fixa aos metadados da ação — ABNT NBR ISO 23081, ISO 30300/30301 e ISO 15489
Apresentação
Um documento sempre foi confiável, em parte, por si mesmo: a assinatura, o timbre e a forma reconhecível diziam o que ele era e quem o havia autorizado. Hoje convivem dois mundos. Muitos sistemas ainda produzem o documento na forma estruturada que conhecemos, e continuarão a produzi-lo. Mas uma parte crescente da atividade já não gera documento algum: gera uma ação registrada em Sistema, um evento declarado, uma aprovação em fluxo digital, uma transação em ERP. Onde a forma fixa se perde, perdem-se com ela as garantias que ela carregava, e surge a pergunta que a maioria das organizações não sabe responder: como confiar em um registro que não tem forma?
Este curso responde a essa pergunta com um método. Um documento de arquivo é confiável quando reúne quatro característica: autenticidade, confiabilidade, integridade e acessibilidade. A tecnologia, sozinha, garante apenas parte delas. As demais dependem da gestão de metadados. Para construí-las de forma que valha para o documento de arquivo com ou sem forma fixa, o curso percorre as cinco entidades que a norma internacional de metadados (ISO 23081) reconhece na produção de um documento de arquivo, registro, agente, atividade, mandato e relação, colocando a atividade e o mandato no centro e o documento de arquivo como resultado da ação. É a mesma estrutura que garante conformidade e que assegura recuperação, rastreabilidade e produtividade.
A abordagem é prática: por meio de exercícios, o participante identifica os documentos de arquivo de suas atividades, do documento de forma fixa à ação registrada em Sistema,
e constrói os instrumentos de controle aplicáveis à sua organização.
Objetivos
Preparar profissionais para enfrentar os desafios da gestão documental na era digital, capacitando-os a reconhecer, controlar e preservar a confiabilidade dos documentos e registros produzidos por pessoas, sistemas e Inteligência Artificial. O curso apresenta uma abordagem prática para estruturar metadados, processos, autoridades e relações, garantindo autenticidade, confiabilidade, integridade, acessibilidade, rastreabilidade e conformidade — mesmo quando a informação deixa de existir como um documento de forma fixa e passa a ser registrada diretamente em sistemas.
Público alvo
Profissionais dos setores público e privado que atuam ou pretendem atuar com gestão da informação em ambientes cada vez mais automatizados. O curso é autônomo: não exige conhecimento prévio de arquivística, metadados ou inteligência artificial. De forma específica:
• Profissionais dos setores de gestão de documentos e arquivos.
• Equipes de tecnologia da informação envolvidas em GED/ECM, sistemas, dados e automação.
• Áreas jurídica, de compliance, ouvidoria e governança.
• Agentes de tratamento de dados e responsáveis pela adequação à LGPD.
• Profissionais de processos e qualidade.
• Gestores responsáveis pelo planejamento estratégico de informação, documentos e TI.
Conteúdo programático
Dia 1 — O problema da confiabilidade e as duas primeiras entidades
1. Por que a gestão de documentos não está defasada
• A transição em curso: a coexistência do documento de arquivo com forma fixa (ainda produzido por muitos sistemas) e do documento de arquivo sem forma fixa (a transação gravada em sistema), com a premissa de que este tende a crescer.
• As quatro características do documento de arquivo confiável: autenticidade, confiabilidade, integridade e acessibilidade.
• A certificação digital e seu limite: garante integridade e não repúdio; não garante, por si só, autenticidade, confiabilidade nem controle de acesso.
• O cenário regulatório brasileiro (LGPD, atuação da ANPD) e o ponto cego dos registros que "estão no sistema".
• A proposta do curso: reposicionar o documento de arquivo — de objeto de forma fixa (ponto de partida) a evidência resultante da ação — com a atividade e o mandato como ponto de entrada da análise.
2. O documento de arquivo como evidência: fundamentos e a base científica
• O documento de arquivo como evidência da atividade, com ou sem forma fixa: autenticidade, confiabilidade, integridade e acessibilidade.
• A diplomática como ciência da forma e da natureza dos atos; a espécie como forma do ato (requerer, autorizar, atestar, declarar), não do objeto físico.
• A fronteira do que é documento de arquivo: nem todo traço de sistema é evidência; distinguir o ato do log puramente técnico. O critério diplomático (ação, forma, conteúdo, relação orgânica, contexto identificável) diante da transação de sistema.
• Normas de referência: ISO 15489, ISO 23081, ISO 30300/30301; a Tabela de Temporalidade como instrumento legal brasileiro (Lei 8.159/91).
3. Entidade REGISTRO e a tipologia como unidade de controle
• O tipo documental como unidade de controle: todos os registros de um mesmo tipo compartilham os mesmos metadados de gestão.
• Tipologia × classificação por assunto (taxonomia): por que a tipologia garante o controle uniforme que a abordagem por tema não alcança.
• A característica em foco: integridade. As tecnologias que a sustentam (hash, assinatura, blockchain) e seu limite: provam que o registro não mudou, não que ele é legítimo.
• Exercício: identificação dos tipos das atividades da organização, partindo de um documento de arquivo com forma fixa e de um documento sem forma fixa equivalente, gravado em sistema.
Dia 2 — O centro do modelo: agente, atividade e autoridade
4. Entidade AGENTE: quem pratica o ato
• O agente: pessoa, estrutura ou sistema que executa a ação. Agentes humanos e agentes automatizados — a norma admite o software como agente quando executa rotineiramente processos de registro.
• A característica em foco: autenticidade (identidade). A certificação e a assinatura digital identificam o agente, mas identidade não é competência.
• O deslocamento para a ação: quando o agente é um sistema, quem responde pelo ato e como se registra a autoria de uma transação sem assinatura.
• Exercício: mapeamento dos agentes das ações da organização, distinguindo identidade (quem) de autoridade (módulo 6).
5. Entidade ATIVIDADE: o centro do controle
• A atividade (processo de trabalho) como núcleo do modelo: é ela, não o documento, que organiza o controle. Hierarquia função → atividade → ação.
• Análise de processos de trabalho para identificar requisitos de registro (ISO/TR 26122).
• Classe não é tipo: por que ancorar o metadado na classe do plano de classificação não garante o comportamento uniforme, e a tipologia da ação garante.
• A tipologia de ações: a unidade espécie + ação aplicada à transação de sistema. A característica em foco: confiabilidade — o registro é fidedigno ao ato porque a atividade que o gerou está identificada.
• Exercício: identificação das atividades da organização e da tipologia de ações de um processo executado em sistema.
6. Entidade MANDATO: sob qual autoridade e base legal
• O mandato: as regras, políticas e normas que autorizam o agente e legitimam o registro — a fonte da autoridade no modelo. O registro é recipiente dessa autoridade, não sua fonte.
• As características em foco: autenticidade (competência para o ato) e acessibilidade (restrição de acesso).
• O ponto cego da tecnologia: nenhuma tecnologia — certificado, blockchain, IA — fornece o mandato. Base legal, competência e restrição de acesso são metadados de gestão.
• Restrição de acesso no fluxo automatizado: dados que circulam entre sistemas e são lidos pela IA; o acesso definido no nível do ato como defesa contra vazamento e não conformidade com a LGPD.
• Base legal, temporalidade e destinação derivadas do mandato. Exercício: definição do mandato de um tipo de ação — base legal, competência do agente e restrição de acesso.
Dia 3 — A relação, a inteligência artificial e a implementação
7. Entidade RELAÇÃO: como as entidades se conectam
• A relação como entidade própria: os vínculos entre registro, agente, atividade e mandato, e entre registros ao longo de um processo.
• As características em foco: acessibilidade e confiabilidade no tempo — um registro isolado não prova; é a rede de relações que sustenta a evidência.
• O desafio dos novos repositórios: preservar não um objeto, mas a capacidade de reconstruir o ato e sua confiabilidade ao longo do tempo (modelo OAIS; nato-digital e nato-estruturado).
• Interoperabilidade: as relações como o que permite à evidência sobreviver à migração e à troca de sistemas.
• Exercício: mapeamento das relações de um registro de sistema — a que ato, agente, mandato e demais registros ele se vincula.
8. As entidades diante da Inteligência Artificial
• Onde a IA falha em cada entidade: classifica o registro, mas não conhece o mandato; identifica padrões, mas não a autoridade do agente; lê o conteúdo, mas não a natureza da atividade.
• A estrutura de entidades como o que a IA precisa receber de fora: a base de conhecimento por atividade como oráculo, para a IA recuperar fundamentação verificada em vez de inferi-la (evitando alucinação).
• A IA como agente e como produtora de registros: decisões algorítmicas e trilhas de auditoria são novos registros, com suas próprias entidades a gerir.
• Governança algorítmica: rastreabilidade e responsabilização ancoradas no modelo de entidades.
• Exercício: especificação de como o esquema de entidades de uma atividade alimentaria uma classificação ou decisão automatizada confiável.
9. Implementação: conduzir a travessia na organização
• Da identificação à parametrização: por que o modelo de entidades precede a escolha e a configuração do sistema (requisitos de GED/ECM/SIGAD, e-ARQ, ISO 16175).
• O esquema de metadados como especificação para sistemas de informação e fluxos automatizados.
• Segurança da informação e LGPD ancoradas na tipologia; classificação de sigilo e acesso por tipo de registro.
• Maturidade, gestão de mudança e o diálogo com a TI: desfazer o mito de que a tecnologia, sozinha, garante a confiabilidade. Governança demonstrável em auditoria, fiscalização e due diligence.
• Encerramento: roteiro para conduzir, na própria organização, a transição do metadado do documento para o metadado da ação.
Palestrante(s)
Capitão-de-Mar-e-Guerra (RM1) da Marinha do Brasil e especialista em Ciência da Informação, com ênfase em Gestão de Documentos, Gestão Eletrônica de Documentos (GED), Preservação Digital e Segurança e Classificação da Informação. É CEO e Sócia da ISSX – Information Solutions and Services e da RIVIC Gestão de Documentos e da Informação, tendo desenvolvido os softwares ASTRUM X e ASTRUM EX. Integra, na ABNT, a Comissão de Estudo de Gestão de Documentos Arquivísticos (CE-14:000.04). Ao longo da carreira, chefiou o Departamento de Arquivos da Marinha, coordenou o Programa de Gestão de Documentos e a implantação do GED do Governo do Estado do Rio de Janeiro e lecionou na UFF, UNIP e UNISUAM. Graduada em Biblioteconomia (UFG), com especializações pela USP e MBA pela UFF, representou o Brasil em comissões nacionais e internacionais, incluindo o Comitê Nacional do Programa Memória do Mundo da UNESCO.
09h00 às 12h00 – Início das atividades
12h00 às 13h00 – Intervalo para almoço
13h00 às 15h30 – Continuidade das atividades
15h30 às 15h45 – Intervalo / Coffee Break
15h45 às 18h00 – Retorno e encerramento das atividades
Serão 3 dias de encontro na cidade do Rio de Janeiro/RJ, realizado em 02 a 04 de dezembro de 2026, totalizando 24 horas de capacitação.
Abordagem prática e aplicada, com cerca de 60% de fundamentação conduzida e 40% de exercícios. Cada entidade é apresentada primeiro no documento — terreno familiar — e imediatamente deslocada para a ação executada em sistema, de modo que o participante construa, entidade por entidade, o esquema de um registro real da sua organização.